Curso Online para Farmacêuticos

  • 1.1 Aborto – uma perspetiva global
  • 1.2 Aborto seguro – definição e métodos
  • 1.3 Técnicas e métodos aprovados de aborto seguro
  • 1.4 Função dos farmacêuticos no aborto medicamentoso seguro
  • 2.1 Aborto medicamentoso seguro – noções básicas
  • 2.2 Continuum de segurança no aborto medicamentoso
  • 3.1 A importância da avaliação
  • 3.2 Os objetivos da avaliação das clientes
  • 4.1 Considerações
  • 4.2 Modo de utilização das pílulas abortivas: Mifepristone + Misoprostol
  • 4.3 Modo de utilização das pílulas abortivas: Apenas Misoprostol
  • 5.1 Controlo dos efeitos esperados
  • 5.2 Controlo dos efeitos secundários comuns
  • 6.1 Duração do aborto
  • 6.2 Sinais de advertência e como devem ser controlados
  • 6.3 Clientes recorrentes – cenários comuns e como devem ser controlados
Módulo 1: Uma visão geral do aborto

Módulo 1: Uma visão geral do aborto



In this lesson, we will review abortion within a global context, define the various types of safe abortion, and explore the expanding role of pharmacists within safe abortion work. Upon completing this lesson successfully, you will be able to cite global rates of abortion and differentiate between safe and unsafe methods of abortion.


O aborto define-se como a expulsão dos produtos da conceção do útero antes do final do seu desenvolvimento e viabilidade. Um aborto pode ocorrer de forma espontânea devido a complicações durante a gravidez ou pode ser induzido. O termo aborto refere-se com mais frequência à interrupção voluntária de uma gravidez humana, enquanto os abortos espontâneos referem-se normalmente à interrupção involuntária da gravidez.

1.1) O aborto no contexto global

O Instituto Guttmacher estima que entre 2010 e 2014 foram provocados aproximadamente 56 milhões de abortos voluntários a nível mundial em cada ano. Isto representa a interrupção de praticamente 25% de todas as gravidezes durante esse período de tempo.1

Fica claro que o aborto induzido ou voluntário é um procedimento comum em todo o mundo. A maioria das mulheres recorre a um aborto quando ficam grávidas sem que isso esteja nos seus planos. Embora uma grande maioria dessas mulheres tenha uma necessidade não satisfeita de contraceção, é importante relembrar que todos os métodos de contraceção podem falhar em algum momento e que as mulheres podem recorrer a um aborto mesmo quando utilizam um método de contraceção.

Quando os provedores qualificados realizam abortos com o equipamento ou os medicamentos adequados, as doses e as técnicas corretas, e com a aplicação das normas sanitárias de início da gravidez, o aborto é um dos procedimentos médicos conhecidos como mais seguros. De facto, apresenta menos riscos do que manter uma gravidez até ao termo. 2

No entanto, os abortos que não cumpram as normas supramencionadas poderão provocar complicações que podem resultar em morte. Os abortos inseguros são um contribuinte significativo para as altas taxas de mortalidade materna nos países em desenvolvimento. Os estudos recentes estimam que entre 8 e 18% das mortes maternas a nível mundial se devem a abortos inseguros. O número de mortes associadas ao aborto em 2014 variou entre 22 500 e 44 000. 3 4 5


1Sedgh G et al., Abortion incidence between 1990 and 2014: global, regional, and subregion-al levels and trends, The Lancet, 2016.

2Raymond, Elizabeth G.; Grimes, David A. The Comparative Safety of Legal Induced Abortion and Childbirth in the United States. Obstetrics & Gynecology. 119(2, Part 1):215-219, February 2012.

3Singh S, Darroch JE and Ashford LS, Adding It Up: The Costs and Benefits of Investing in Sexual and Reproductive Health 2014, New York: Guttmacher Institute, 2014.

1.2) Aborto seguro – definição e métodos

Um aborto seguro é um procedimento médico executado por um indivíduo qualificado que limita o risco de morbilidade e mortalidade da mulher. Assim, é importante que os procedimentos abortivos cumpram requisitos de segurança específicos.

Ao contrário do aborto seguro, a Organização Mundial da Saúde define um aborto inseguro como um procedimento de interrupção de uma gravidez não desejada executado por pessoas que não possuam as competências necessárias e/ou num ambiente que não cumpra as normas médicas mínimas.

As consequências do aborto inseguro para a saúde dependem das instalações onde é realizado o aborto, das competências do provedor do aborto, do método de aborto utilizado, da saúde da mulher e da idade gestacional da respetiva gravidez. Os procedimentos de aborto inseguro podem incluir qualquer uma das seguintes práticas:

  • introdução de um objeto ou substância no útero, tal como raízes, objetos metálicos ou preparados de ervas tradicionais;
  • dilatação e curetagem realizada incorretamente por um provedor inexperiente;
  • ingestão de substâncias nocivas;
  • ou a aplicação de forças externas.

Tudo isto pode resultar em algumas complicações médicas e, em vários casos, pode colocar a vida em risco.



4Kassebaum NJ et al., Global, regional, and national levels and causes of maternal mortality during 1990–2013: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2013, The Lancet, 2014, 384(9947):980–1004.

5Say L et al., Global causes of maternal death: a WHO systematic analysis, The Lancet Global Health, 2014, 2(6):e323–e333

6Safe Abortion: Technical and Policy Guidance for Health Systems, Second edition page 18 (World Health Organization 2012):

1.3) Técnicas e métodos aprovados de aborto seguro

A OMS, com base numa análise sistemática das evidências, recomendou os seguintes como métodos seguros para a interrupção de uma gravidez:

  1. Aspiração a vácuo (manual ou elétrica): Este é um método cirúrgico em que os produtos da conceção são removidos por aspiração através de uma cânula de plástico, introduzida no útero. Um vácuo criado manualmente ou através de uma bomba elétrica é utilizado para conseguir a aspiração. Uma vez que o material utilizado não é metálico e a quantidade de vácuo utilizado é limitada, este procedimento é seguro e reduz os riscos de lesões nos órgãos se for utilizado corretamente. Este método é normalmente utilizado para interromper gravidezes de até 12 a 14 semanas.
  2. Aborto medicamentoso: Neste método, é administrada uma combinação de dois fármacos ou doses repetidas de um único fármaco para a interrupção da gravidez. Esta é uma forma não cirúrgica e não invasiva para a interrupção da gravidez e remoção dos produtos da conceção. Os dois fármacos normalmente utilizados são Misoprostol isolado ou em conjunto com o Mifepristone. Com base numa análise de alguns estudos clínicos, a OMS e outras organizações internacionais identificaram os protocolos e regimes mais eficazes em relação à utilização destes fármacos para um aborto seguro. A dose dos fármacos utilizados irá variar de acordo com a duração da gravidez de modo a obter melhores resultados e limitar os perigos para a mulher. Este método pode ser utilizado ao longo da gravidez, com variações na dosagem e periodicidade dos fármacos utilizados para que resulte num aborto.
  3. Dilatação e evacuação: Após as 14 semanas de gravidez, a OMS recomenda um procedimento denominado Dilatação e Evacuação, em que são utilizados fármacos ou dilatadores metálicos para abrir o colo do útero e o feto é removido através de umas pinças. Este é um procedimento cirúrgico complexo e avançado e apenas deve ser executado por profissionais de saúde qualificados e competentes num ambiente adequado.

É importante ter em consideração que a Dilatação e Curetagem (normalmente referido como “D&C” ou “curetagem”) NÃO é considerada um procedimento seguro, com base na análise das evidências e, por conseguinte, a OMS não a recomenda como um procedimento seguro para a interrupção da gravidez.

1.4) Função dos farmacêuticos no aborto medicamentoso seguro

O Farmacêutico e os funcionários da Farmácia são um grupo importante de profissionais de saúde associados que podem desempenhar um papel fundamental na expansão do acesso ao aborto medicamentoso seguro. As atuais investigações de vários países indicam que as mulheres procuram a orientação dos farmacêuticos quando pretendem interromper gravidezes indesejáveis, independentemente do quadro legal do respetivo país. Isto representa uma grande oportunidade para os farmacêuticos e funcionários da farmácia para que desempenhem um papel de liderança na expansão do acesso a serviços de aborto seguro, principalmente o aborto medicamentoso seguro no primeiro trimestre.

A OMS reconheceu explicitamente os farmacêuticos e funcionários da farmácia como uma classe discreta de profissionais de saúde que têm um papel a desempenhar na expansão do acesso ao aborto seguro. No contexto de uma investigação rigorosa, a OMS recomendou as seguintes tarefas como seguras e eficazes para os farmacêuticos durante um aborto medicamentoso no primeiro trimestre:

  1. Avaliação da elegibilidade para o aborto medicamentoso
  2. Administração dos medicamentos e controlo do processo e efeitos secundários comuns de forma independente
  3. Avaliação da conclusão do procedimento e da necessidade de um seguimento clínico adicional

Esta é uma área de grande interesse e de investigação em expansão. Este curso de formação é uma iniciativa que se destina a aumentar as capacidades dos farmacêuticos para ajudar as mulheres a beneficiar de abortos medicamentosos seguros e eficazes, através da prestação de serviços e informações precisas em relação ao aborto medicamentoso até às 10 semanas.


7Health worker roles in providing safe abortion care and post-abortion contraception, World Health Organization 2015

Módulo 2: Aborto medicamentoso seguro

Módulo 2: Aborto medicamentoso seguro



In this lesson, we will explore Mifepristone and Misoprostol, the two recommended drugs to be used for safe medical abortion. Upon completing this lesson successfully, you will be able to explain both drugs' classification, administration, and pharmacological effects.


2.1 Métodos de Aborto Medicamentoso

O aborto medicamentoso foi o único desenvolvimento mais significativo nas práticas de aborto desde a aspiração a vácuo e revolucionou a prestação de serviços de aborto. Permitiu que os serviços de aborto seguro pudessem ser prestados fora de um centro de saúde ou com poucas visitas ao mesmo. Isto reduz o custo para as clientes e permite que as mulheres desempenhem um papel mais importante na sua própria saúde.

Os sintomas de um aborto com pílulas são bastante similares aos da interrupção involuntária da gravidez. Esta similaridade concede diversas vantagens às mulheres. O aborto medicamentoso é frequentemente considerado um processo mais natural, que pode ser executado num local seguro e privado, não requer instrumentação cirúrgica e pode assemelhar-se ao sangramento menstrual (embora a dor e a quantidade de sangramento seja variável e dependa da duração da gravidez).

A nível global, os dois fármacos recomendados para um aborto medicamentoso incluem o Mifepristone e Misoprostol.

Mifepristone: Mifepristone, também conhecido como RU- 486, é uma hormona com uma forte afinidade aos recetores de progesterona no útero. Se for administrado oralmente, combate com a progesterona enquanto se vincula aos recetores e limita os efeitos da progesterona. O resultado disto é:

  1. A separação do saco gestacional da parede uterina;
  2. A suavização e dilatação do colo do útero; e
  3. Um aumento da capacidade da parede uterina em contrair-se, funcionando como um primário para o Misoprostol

O Mifepristone deve ser administrado oralmente, com os efeitos observados em 12 a 24 horas. Dependendo do processo em que o fármaco é produzido, o prazo de validade pode variar entre 24 a 48 meses8


8https://extranet.who.int/prequal/content/prequalified-lists/medicines

Savitz, D. A., Terry, J. W., Dole, N., Thorp, J. M., Siega-Riz, A. M., & Herring, A. H. (2002). Com-parison of pregancy dating by last menstrual period, ultrasound scanning, and their combi-nation. American journal of obstetrics and gynecology, 187(6), 1660-1666.

Wegienka, G., & Baird, D. D. (2005). A comparison of recalled date of last menstrual periodwith prospectively recorded dates. Journal of Women's Health, 14(3), 248-252.

Burger W, Chemnitius JM, Kneissl GD, Rucker G. Low-dose aspirin for secondary cardiovas-cular prevention - cardiovascular risks after its perioperative withdrawal versus bleeding risks with its continuation - review and meta-analysis. J Intern Med 2005;257(5):399–414

Misoprostol: O Misoprostol é uma prostaglandina sintética (Tipo E1) que foi inicialmente registada para a prevenção contra úlceras gástricas associadas a anti-inflamatórios não esteroides. No entanto, desde a sua descoberta inicial, foram identificadas algumas utilizações do Misoprostol em Obstetrícia e Ginecologia. O Misoprostol é atualmente utilizado em vários países para iniciar o parto, impedir e tratar o sangramento de pós-parto, e tratar um aborto induzido ou incompleto. Devido à sua grande variedade de utilizações, o Misoprostol está incluído na Lista dos Medicamentos Essenciais para Adultos da OMS. Também é reconhecido pela Comissão da ONU sobre os insumos vitais para as mulheres e crianças (UNCoLSC), principalmente quanto à sua utilização no aborto seguro.

Podem ser utilizados vários modos de administração do Misoprostol, tal como por via sublingual, bucal ou vaginal. No entanto, tenha em consideração que não se recomenda ingerir ou engolir Misoprostol devido à eficácia reduzida para a ação uterina.

Embora existam várias vias de administração do Misoprostol, a melhor opção é a de escolher um método e utilizar essa via para todas as doses quando se submeter a um aborto medicamentoso.

Assim que for absorvido pelo sangue, o Misoprostol converte-se em ácido de Misoprostol. Isto ativa fortes contrações no útero e resulta na suavização e dilatação do colo do útero. Ambos os processos facilitam a expulsão dos produtos da conceção.

O Misoprostol é um composto estável relativamente quente (particularmente se comparado com a Oxitocina), mas pode deteriorar-se rapidamente na presença de humidade elevada e altas temperaturas. Assim, é importante que os comprimidos de Misoprostol se encontrem numa dupla embalagem blister de alumínio e armazenados num local frio e seco.

Uma mulher começará normalmente a sentir cólicas e a sofrer sangramento 1 a 2 horas após o primeiro conjunto de pílulas de Misoprostol ser absorvido pelo corpo. Na maioria das mulheres, o conteúdo uterino será normalmente expelido no prazo de 24 horas após tomar as últimas pílulas de Misoprostol, apesar de o aborto poder demorar mais do que isso para ficar completamente concluído.

Nota: O aborto medicamentoso é, por vezes, denominado aborto por medicamentos, aborto farmacológico, aborto químico ou a pílula abortiva. É importante ter em consideração que o aborto medicamentoso é diferente da contraceção de emergência, também conhecida como “CE” ou a “pílula do dia seguinte”. A CE é um contracetivo que impede que ocorra uma gravidez.

2.2 Continuum de Segurança no Aborto Medicamentoso

No passado, a definição de segurança no aborto centrou-se em três aspetos – os conhecimentos do provedor, as competências médicas ou cirúrgicas do provedor e a segurança do local onde o aborto era realizado. No entanto, um conjunto de provas cada vez maior em torno do aborto medicamentoso mudou este paradigma de segurança. Um aborto medicamentoso seguro tem atualmente como base os conhecimentos precisos sobre o processo da gravidez, a ação dos medicamentos utilizados e a sua administração e dosagem corretas. Isto significa que outras áreas de segurança, tal como o ambiente e as competências cirúrgicas do provedor, têm menos probabilidade de influenciar a segurança e o resultado do processo do aborto medicamentoso. Por conseguinte, se tiverem conhecimentos sobre os três fatores supramencionados, os farmacêuticos ou funcionários da farmácia poderão prestar um apoio eficaz às mulheres para que tenham um aborto seguro.

Embora o Mifepristone e Misoprostol (se utilizados corretamente) sejam fármacos bastante seguros, isso não quer dizer que não apresentam riscos. Doses incorretas dos fármacos de aborto medicamentoso podem resultar em situações potencialmente perigosas, principalmente com o Misoprostol. Uma vez que a sensibilidade do útero grávido ao Misoprostol aumenta drasticamente com a idade gestacional, é importante relembrar que quanto mais precoce for a gravidez (no primeiro trimestre), maior é a dose de Misoprostol necessária para conseguir um aborto. À medida que a gravidez avança, a dose de Misoprostol deve ser reduzida de acordo com a idade gestacional.

A administração de uma dose de Misoprostol inferior à necessária no início da gravidez poderá resultar num aborto incompleto, o que provoca eventos adversos graves tal como sangramento ou infeção. A administração de uma dose de Misoprostol superior à necessária pode resultar numa estimulação excessiva do útero, o que pode provocar uma rutura uterina que pode colocar a vida em risco.

Quando explorar o aborto medicamentoso seguro, é importante que tenha em consideração cada um dos seguintes aspetos: avaliação da elegibilidade, distribuição dos medicamentos adequados, prestação de cuidados de apoio clínico e fornecimento de informações completas e precisas às clientes.

Estes quatro aspetos do aborto medicamentoso serão analisados na restante parte deste curso. Cada aspeto é essencial para proporcionar uma experiência segura de alta qualidade às mulheres.

Módulo 3: Avaliação das clientes

Módulo 3: Avaliação das clientes



Neste módulo, iremos discutir a importância da avaliação das clientes para um aborto medicamentoso. Também iremos identificar os principais objetivos da avaliação e o modo de cumprir estes objetivos de forma simples e eficiente. Após a conclusão deste módulo, poderá explicar a importância e os objetivos da avaliação das clientes para um aborto medicamentoso num contexto farmacêutico.


3.1) A importância da avaliação

A avaliação das clientes refere-se a uma curta interação focada entre o funcionário da farmácia e a cliente de modo a garantir que a mesma se encontra medicamente apta para receber os fármacos e que pode avançar com um aborto medicamentoso, com ligeira ou nenhuma supervisão e apoio médico.

Objetivo da avaliação: O principal objetivo da avaliação é o de garantir que são fornecidos os fármacos e informações adequados às mulheres, de modo a assegurar que o processo de aborto medicamentoso é seguro, reduz o risco de complicações a evitar e aumenta a possibilidade de um aborto bem-sucedido.

Na maioria dos casos, há uma interação entre o farmacêutico e a cliente aquando da obtenção dos fármacos do aborto medicamentoso. Os funcionários da farmácia devem utilizar esta interação para obter informações em relação à gravidez e saúde das mulheres, de modo a garantir que a cliente é elegível para um aborto medicamentoso.

O funcionário da farmácia deve explicar que necessita de avaliar a elegibilidade de uma forma curta e sucinta. Algumas perguntas estruturadas irão gerar respostas para a avaliação da elegibilidade. Estão incluídas algumas sugestões de exemplos de perguntas na próxima secção sob os objetivos e podem ser modificadas pelos próprios farmacêuticos com base no contexto, costumes e normas locais.

Em alguns casos, é possível que o indivíduo que pretende obter os fármacos do aborto medicamentoso na farmácia não seja a mulher que pretende utilizar os fármacos. Neste tipo de situações, é importante que o farmacêutico explique a importância da avaliação ao indivíduo. O farmacêutico pode proporcionar uma lista de perguntas para que a cliente efetue uma autoavaliação da elegibilidade e distribuir a dose adequada de medicamentos.

3.2) Os objetivos da avaliação das clientes

O principal objetivo da avaliação das clientes é o de aumentar a segurança e qualidade do serviço de aborto medicamentoso.

1.º Objetivo da Avaliação: Avaliar corretamente a idade gestacional para confirmar a dosagem de fármacos do aborto medicamentoso, principalmente em relação ao Misoprostol

O regime de dosagem para o aborto medicamentoso deve ser adequado quanto à duração da gravidez de modo a garantir um aborto seguro e bem-sucedido. A dose adequada de Misoprostol irá reduzir a possibilidade de um procedimento falhar devido a uma dosagem reduzida ou de uma estimulação excessiva com uma sobredosagem.

Pergunte à mulher qual foi o primeiro dia do seu último período menstrual e calcule o número de semanas desde o último período menstrual até à data do possível consumo dos fármacos através de um calendário. As investigações em vários contextos demonstraram que a utilização do último período menstrual para atribuir uma data às gravidezes é aceitável e precisa. Na maioria dos casos, as mulheres conseguem recordar o seu último período menstrual com razoável precisão.

Certifique-se de que não existe a possibilidade de a gravidez ter mais de 10 semanas com base no seu cálculo. Caso se considere que a gravidez tenha 10 semanas ou menos com base no seu cálculo, pode distribuir os fármacos com segurança, conforme indicado no Módulo 4.

Caso exista a possibilidade de a gravidez ter mais de 10 semanas com base no seu cálculo, então não distribua os fármacos de acordo com o protocolo no Módulo 4. Terá de ajustar a dose do Misoprostol com base na idade gestacional ou aconselhar as mulheres a consultar um médico para obter ajuda.

2.º Objetivo da Avaliação: Identificar as contraindicações para a utilização de fármacos do aborto medicamentoso.

Tal como todos os medicamentos e fármacos, o Mifepristone e o Misoprostol possuem algumas contraindicações, tal como alergia conhecida ao Mifepristone, Misoprostol, ou outras prostaglandinas, ou se as mulheres têm alguma condição médica que exclua a utilização destes fármacos.

As contraindicações quanto à utilização do Mifepristone incluem:

  • Terapêutica sistémica atual com corticosteroides a longo prazo
  • Insuficiência Suprarrenal Aguda
  • Porfíria Herdada
  • Distúrbios hemorrágicos
  • Terapia anticoagulante atual, e
  • Intolerância ou alergia ao Mifepristone

As contraindicações quanto à utilização do Misoprostol incluem:

  • Intolerância ou alergia conhecida ao Misoprostol ou outras prostaglandinas

Se a mulher tiver uma contraindicação para a utilização do Mifepristone, pode ser utilizado um regime de apenas Misoprostol com segurança, desde que não haja uma contraindicação para a utilização do Misoprostol.

De modo a identificar as contraindicações para os fármacos de aborto medicamentoso, efetue o seguinte:

  • Pergunte simplesmente à mulher se tem alguma alergia conhecida às prostaglandinas ou Mifepristone. Nesse momento, também pode perguntar se tem alergia a algum outro fármaco de modo a ter em consideração quais são os outros medicamentos de cuidados de apoio clínico que pode ou não distribuir.
  • Pergunte à mulher se está a tomar algum anticoagulante ou se sangra durante muito tempo depois de sofrer um ferimento. Se responder afirmativamente, investigue mais para avaliar se tem algum distúrbio hemorrágico.
  • Embora a presença de algum distúrbio hemorrágico hereditário seja uma contraindicação para o aborto medicamentoso, o uso simultâneo de uma dose reduzida de Aspirinas ou Clopidrogel (um fármaco antiplaquetário) não é, normalmente, uma contraindicação absoluta quanto aos fármacos do aborto medicamentoso. Embora nenhum estudo recente tenha analisado o risco de hemorragia em relação a ambas as terapias em mulheres que se submetem a um aborto, em geral, a terapia com dose reduzida de aspirinas não aumenta a gravidade das complicações hemorrágicas ou mortalidade perioperatória. No entanto, se uma cliente estiver a utilizar uma dose reduzida de aspirinas e Clopidrogel, deve ser avaliada por um médico antes da administração de fármacos do aborto medicamentoso.
  • A preponderância de porfiria é variável em diferentes populações e é uma condição difícil de examinar se não estiver num centro de saúde com testes avançados e várias visitas. Mesmo nos centros de saúde, esta condição apenas poderá ser diagnosticada retroativamente após a administração dos medicamentos. Sendo assim, tenha isto em consideração e informe a cliente que pode ser acionado um ataque agudo através da administração de fármacos do aborto medicamentoso.

Além das condições supra, é importante ter em consideração que há outras condições médicas que podem exigir uma supervisão médica ou apoio durante um aborto medicamentoso. Os farmacêuticos devem ter isto em consideração e recomendar às clientes que consultem um médico.

3.º Objetivo da Avaliação: Garantir que a mulher não possui um dispositivo intrauterino contracetivo no útero.

Por vezes, mesmo que estejam a utilizar um DIU, as mulheres podem ficar grávidas. Nesses casos, o DIU deve ser removido antes da administração dos fármacos do aborto medicamentoso. As contrações provocadas pelo Misoprostol podem resultar em lesões uterinas (tal como uma perfuração) se o DIU se encontrar no interior do útero.

Pergunte à mulher se está atualmente a utilizar um DIU ou se alguma vez lhe foi introduzido um DIU que não tenha sido removido. A maioria das mulheres irá lembrar-se disso e poderá senti-lo. Instrua a mulher de que o dispositivo deve ser removido (seja por um profissional de saúde num centro de saúde ou pela própria mulher) antes de tomar a primeira dose dos fármacos do aborto medicamentoso.

Forneça informações sobre os riscos de tomar um fármaco do aborto medicamentoso com um DIU no interior do útero.

4.º Objetivo da Avaliação: Explicar que o aborto medicamentoso não irá funcionar no caso de se tratar de uma gravidez ectópica e que a mulher deve consultar urgentemente um médico para o tratamento de uma gravidez ectópica

Outra condição médica que pode apresentar um risco grave para o sucesso do aborto medicamentoso é a gravidez ectópica. Uma vez que uma gravidez ectópica é diferente de uma gravidez normal, os fármacos do aborto medicamentoso (o Mifepristone e o Misoprostol) não surtirão efeito na interrupção de uma gravidez ectópica. Uma mulher deve consultar imediatamente um médico para receber o tratamento para uma gravidez ectópica, que é legal em todos os países e oferecido como parte dos serviços obstétricos.

É bastante difícil, ou mesmo impossível, diagnosticar uma gravidez ectópica sem um exame interno ou uma ecografia. Se uma gravidez ectópica (principalmente uma gravidez tubária) for interrompida, tal pode resultar numa hemorragia interna que pode colocar a vida da mulher em risco. Assim, embora esta condição médica não possa ser avaliada durante a visita a uma farmácia, o farmacêutico deve estar ciente desta possibilidade e fornecer as informações adequadas às clientes para a identificação e obtenção de tratamento para essa condição.

Módulo 4: Distribuição dos fármacos do aborto medicamentoso

Módulo 4: Distribuição dos fármacos do aborto medicamentoso



Neste módulo iremos discutir e aprender sobre as considerações importantes aquando da distribuição dos fármacos do aborto medicamentoso. Após a conclusão deste módulo, conseguirá indicar corretamente os fármacos utilizados para um aborto medicamentoso, as respetivas doses, a periodicidade e a via de administração para um aborto nas primeiras 10 semanas de uma gravidez.


4.1) Considerações:

Após a fase de avaliação, deve ter determinado a duração da gravidez e estabelecido se a cliente é elegível para tomar fármacos do aborto medicamentoso.

Com base no contexto local e na disponibilidade dos fármacos, há duas opções para um aborto medicamentoso
Opção 1: Um regime combinado que utiliza o Mifepristone seguido pelo Misoprostol
Opção 2: Utilização de doses repetidas somente de Misoprostol

Se ambas as opções estiverem disponíveis, devem ser apresentadas à cliente informações quanto à respetiva eficácia em conjunto com o custo das opções de modo a poder decidir a opção que prefere.

Mifepristone e Misoprostol Aborto medicamentoso apenas com Misoprostol
Amplamente eficaz quando utilizado nas primeiras 10 semanas de uma gravidez (95% – 99%), com um sucesso similar à aspiração a vácuo Eficaz, com taxas de sucesso entre 75% e 90%
O risco de permanecer grávida como um evento adverso deste método é bastante reduzido (< 1%) O risco de permanecer grávida mesmo após ser submetida ao regime prescrito é bastante significativo, aproximadamente 5 a 7%
Mais caro, uma vez que são utilizados dois tipos de fármacos Possivelmente será mais barato

4.2) Modo de Utilização das Pílulas Abortivas: Mifepristone + Misoprostol:

Aquando da distribuição do Mifepristone e Misoprostol, certifique-se de que é entregue à cliente o regime completo. Não forneça apenas uma parte do regime, uma vez que isso não funcionará.

Distribua um comprimido de Mifepristone de 200 mg e quatro comprimidos de Misoprostol de 200 mcg à cliente, com as seguintes instruções sobre como devem ser tomados:

Passo 1: Engolir uma pílula de Mifepristone (200 mg) com água. Algumas mulheres (até 40%) podem sentir náuseas depois de tomar o Mifepristone. Se a cliente vomitar durante a hora seguinte a ter tomado a pílula de Mifepristone, é pouco provável que funcione e deve repetir a dose. Se a cliente vomitar após uma hora de ter engolido a pílula de Mifepristone, o fármaco terá sido absorvido de forma suficiente para o aborto e não será necessário que repita a dose.

Passo 2: Aguardar 24 a 48 horas. Deve dizer à cliente para aguardar 24 horas antes de utilizar o Misoprostol, mas não aguardar mais do que 48 horas. Enquanto a cliente aguarda, pode fazer tudo o que costuma fazer durante o seu dia-a-dia, tal como cuidar da família ou ir para o trabalho ou para a escola. Menos de 10% das mulheres sofrem sangramentos ou sentem cólicas após a administração do Mifepristone.

Passo 3: Após 24 horas e antes das 48 horas, beba um pouco de água para que a sua boca fique húmida. Coloque as 4 pílulas de Misoprostol (200 mcg cada) entre a sua bochecha e as gengivas inferiores (2 pílulas de cada lado), ou diretamente na sua língua.

Passo 4:  Mantenha as pílulas de Misoprostol nas suas bochechas ou sob a sua língua durante 30 minutos. Pode fazer com que a boca fique seca ou deixar um mau sabor na mesma à medida que se dissolvem. Não coma ou beba durante esses 30 minutos. Engula normalmente quaisquer secreções que se encontrem na sua boca e não cuspa durante esses 30 minutos.

Passo 5:  Após 30 minutos, lave a sua boca com água e beba tudo o que restou das pílulas.

4.3) Modo de Utilização das Pílulas Abortivas: Apenas Misoprostol:

Aquando da distribuição de apenas Misoprostol, certifique-se de que é entregue à cliente o regime completo. Uma vez que é difícil identificar que mulheres necessitarão de doses adicionais e quantas, proporcionar menos do que a dose completa poderá resultar numa menor taxa de sucesso na interrupção de gravidezes e resultar noutros eventos adversos.

Distribua 12 comprimidos de Misoprostol de 200 mcg à cliente com as seguintes instruções sobre como devem ser tomados: Aquando da distribuição dos comprimidos, não os remova da respetiva embalagem blister e informe a cliente que apenas deve remover o medicamento da embalagem antes de os colocar na boca.

Passo 1:  Beba um pouco de água para que a sua boca fique húmida. Coloque as 4 pílulas diretamente sob a língua e deixe-as dissolver. Mantenha-as por baixo da sua língua durante 30 minutos. Podem fazer com que a sua boca fique seca ou deixar um mau sabor na mesma à medida que se dissolvem. Não coma ou beba durante os 30 minutos. Engula normalmente quaisquer secreções que se encontrem na sua boca e não cuspa durante esses 30 minutos.

Após 30 minutos, lave a sua boca com água e beba tudo o que restou das pílulas.

Aguarde 3 a 4 horas antes de prosseguir.

Passo 2: Após 3 a 4 horas, mesmo que esteja a sentir cólicas ou tenha começado a sangrar, repita o Passo 1 com mais 4 pílulas.

Aguarde 3 a 4 horas depois de concluir o Passo 2.

Passo 3: Após mais 3 a 4 horas (isto é, 6 a 8 horas após ter tomado a primeira dose de Misoprostol) repita o Passo 1 com o último conjunto de 4 pílulas. Certifique-se de que conclui o Passo 3, mesmo que esteja ativamente a sentir cólicas e a sangrar e consiga ver os produtos da conceção a serem expelidos.

Módulo 5: Cuidados de apoio clínico durante um aborto medicamentoso

Módulo 5: Cuidados de apoio clínico durante um aborto medicamentoso



Neste módulo iremos discutir outras formas de cuidados que poderá proporcionar às mulheres que se submetam a um aborto medicamentoso. As informações presentes neste módulo irão ajudá-lo a apoiar as clientes a controlar os efeitos secundários esperados e indesejáveis do aborto medicamentoso e a aumentar a satisfação das clientes com a experiência do aborto medicamentoso.


Além de fornecer os fármacos do aborto medicamentoso, há outras ações que pode proporcionar enquanto farmacêutico que garantirão uma experiência positiva e confortável às clientes que se submetam a um aborto medicamentoso. Essas ações são essenciais para garantir que o serviço prestado é de alta qualidade e resulta na satisfação da cliente.

Os sintomas comuns sentidos durante um aborto medicamentoso incluem as cólicas e o sangramento. Estes são dois sintomas essenciais e esperados do processo de aborto medicamentoso. É importante que todas as mulheres sejam informadas sobre estes sintomas e recebam os cuidados de apoio clínico adequados previamente para ajudar a controlar melhor estes sintomas.

Além dos sintomas, tal como com qualquer medicamento, algumas mulheres podem sentir efeitos secundários que não são desejáveis e isso pode afetar a experiência geral de um aborto medicamentoso para a cliente. É importante que as mulheres estejam cientes de ambos os sintomas esperados necessários para que o aborto produza efeito e os efeitos secundários que se podem sentir como resultado da administração dos medicamentos.

Embora os efeitos secundários prolongados ou graves sejam raros, os efeitos secundários pouco significativos podem ser comuns durante o aborto medicamentoso. Normalmente, estes efeitos secundários desaparecem na maioria das mulheres entre 4 a 6 horas após terem tomado o Misoprostol. Não há efeitos secundários a longo prazo do aborto medicamentoso.

Os cuidados de apoio clínico destinam-se a controlar os sintomas e efeitos secundários dos fármacos do aborto medicamentoso de forma eficaz e a ajudar as clientes a passar por um aborto seguro e confortável.

5.1) Controlo dos sintomas esperados

Antes de começar o processo de aborto, certifique-se de que a mulher sabe que:

  • Não deve ficar preocupada se sofrer mais sangramento e sentir mais cólicas do que num período normal
  • Pode beber e comer o que quiser depois de terminar de tomar os medicamentos.
  • Deve tentar permanecer num sítio confortável até se sentir melhor.
  • Deve estar esclarecida sobre o que são efeitos secundários e o que são sinais de advertência.
  • Pode proporcionar-lhe medicamentos e aconselhamento sobre como controlar os efeitos secundários, mas esta também deve ter um plano bem ponderado em conformidade com o contexto do país para a obtenção de cuidados médicos de emergência.
  • A maioria das mulheres sente-se melhor em menos de 24 horas.

É importante informar a mulher que a maioria dos efeitos secundário estão possivelmente associados ao Misoprostol (mais do que ao Mifepristone) e, portanto, deve coordenar-se para estar num local seguro, confortável e privado antes de utilizar o Misoprostol.

Os sintomas esperados incluem:

Cólicas
A maioria das mulheres sofre dores abdominais e cólicas durante os 30 minutos após ter utilizado o Misoprostol. As cólicas são um sinal de que o útero começou a contrair-se e está no processo de expelir os produtos da interrupção. Isto é um sinal de que os medicamentos estão a funcionar. As cólicas estão normalmente associadas a dores. O nível de dor varia consideravelmente e está relacionado com a duração da gravidez, a força das contrações uterinas, os níveis de ansiedade e os limites de tolerância às dores da pessoa em questão.

Sangramento
A maioria das mulheres irá sofrer sangramento estreitamente associado às cólicas. Enquanto menos de 10% das mulheres sofrem sangramento após terem tomado Mifepristone, a maioria das mulheres começará a sangrar após a primeira dose de Misoprostol. Assim que começar, o sangramento poderá durar várias horas e é mais forte durante a expulsão dos produtos da conceção. As mulheres podem observar amplos coágulos de sangue ou tecido durante o processo e não devem ficar preocupadas apenas por reparar nisto durante o processo de expulsão.

A quantidade e o padrão de sangramento variam de mulher para mulher e estão relacionados com a duração da gravidez. Para a maioria das mulheres, o sangramento tornar-se-á menos forte 1 a 2 horas após a expulsão do conteúdo uterino e irá continuar durante uma a duas semanas, com cada vez menos intensidade. Algumas mulheres sofrem sangramento ou manchas durante até quatro semanas após terem tomado as pílulas do aborto medicamentoso.

Estes sintomas são úteis, uma vez que demonstram que os medicamentos estão a funcionar. Para amenizar a experiência e aliviar as cólicas, devem ser sempre oferecidos medicamentos para as dores às mulheres.

Quando instruir as mulheres sobre como controlar as dores durante um aborto medicamentoso, aborde o seguinte:

  • Aponte recomendações gerais sobre métodos não médicos para a redução das dores e da ansiedade, tal como estar num lugar confortável, ouvir música, evitar realizar trabalhos pesados e utilizar uma botija de água quente no abdómen (semelhantes às que são utilizadas durante os períodos menstruais).
  • Ofereça medicamentos para as dores a todas as mulheres que se submetam a um aborto medicamentoso. Estes devem ser idealmente distribuídos em conjunto com o Mifepristone e/ou o Misoprostol. Os anti-inflamatórios não esteroides (AINEs), tal como o Ibuprofeno, Diclofenac etc., são bastante eficazes para a redução das elevadas dores sentidas durante um aborto medicamentoso na maioria das mulheres. A dosagem recomendada em relação aos AINEs comuns é

    • Ibuprofeno – 400 – 800 mg a cada 6 a 8 horas (dose máxima de 3200 mg em 24 horas)
    • Diclofenac sódico – 50 mg a cada 12 horas (dose máxima de 150 mg em 24 horas)

De modo a garantir que os medicamentos para as dores por via oral sejam o mais eficazes possível, podem ser tomados entre 30 a 45 minutos antes de tomar a dose de Misoprostol. As mulheres devem ser recomendadas a tomar os medicamentos para as dores previamente, uma vez que demoram algum tempo a surtir efeito. Não devem esperar até que as dores sejam insuportáveis antes de tomar estes medicamentos. É importante ter em consideração que o paracetamol (por via oral ou retal) é ineficaz para a redução das dores durante o aborto medicamentoso

5.2) Controlo dos efeitos secundários comuns

Além dos efeitos previamente discutidos, o Misoprostol também pode ter alguns efeitos secundários desagradáveis. A incidência e gravidade dos efeitos secundários estão relacionadas com a via de administração do Misoprostol. A administração por via oral ou por via sublingual estão normalmente associadas a uma alta incidência registada de efeitos secundários. Por conseguinte, é importante informar e apoiar as mulheres em relação ao controlo destes efeitos secundários indesejáveis para uma experiência confortável.

Náuseas e Vómitos
Podem ocorrer náuseas, tonturas e vómitos em algumas mulheres e irão atenuar 2 a 6 horas após a utilização do Misoprostol. Por vezes, as náuseas devido à gravidez podem ser perturbadas ou piorar com a administração do Misoprostol. Isto pode ser muito incómodo para as mulheres e pode resultar em vómitos e desidratação. Este efeito desaparece normalmente assim que a gravidez é interrompida e o efeito do Misoprostol se reduz.

O aconselhamento de apoio, tal como comer produtos alimentares secos ligeiros, pode ajudar a controlar as náuseas. Podem ser fornecidos medicamentos adicionais, tal como Domperidone, Ondansetron e Metoclopramida, à cliente (desde que não haja contraindicações para a respetiva utilização) para controlar os efeitos secundários.

Tonturas
Até 20% das mulheres que utilizam Misoprostol também podem sentir tonturas que tenham pouca explicação. Garantir que as mulheres não têm fome e que estão deitadas costuma ajudar com este efeito secundário.

Cólicas no estômago e diarreia
Outro efeito secundário desconfortável da utilização do Misoprostol é que algumas mulheres (até 40%) sofrem diarreia leve a moderada. Em alguns casos, a utilização de Misoprostol com comida pode ajudar a limitar este sintoma. Embora isto seja normalmente autolimitado e desapareça após um dia de se ter tomado a última dose de Misoprostol, podem ser distribuídos medicamentos adicionais, tal como Loperamida, para ajudar as mulheres a controlar isto

Febre e calafrios
A incidência de febre está relacionada com a via de administração e dosagem do Misoprostol (com maior incidência observada em doses elevadas por via sublingual). No entanto, parece haver variações genéticas entre os grupos étnicos. A maioria das mulheres que utiliza uma via de administração sublingual sente um aumento transitório na temperatura corporal associado aos calafrios. A febre é normalmente mais elevada após 1 a 2 horas de ter utilizado o Misoprostol e normalmente desaparece até 8 horas após a última dose. O Ibuprofeno tomado para o controlo das dores também costuma ajudar com este efeito secundário. Se tal não for adequado e a febre for incómoda, também pode ser utilizado paracetamol além de Ibuprofeno. No entanto, deve ser tomado cuidado para limitar a utilização geral de AINEs num período de 24 horas.

Módulo 6: Fornecimento de informações precisas e completas

Módulo 6: Fornecimento de informações precisas e completas



Neste último módulo iremos discutir sobre outras informações importantes que deve conhecer para ajudar as mulheres que se submetam a um aborto medicamentoso a obter um resultado seguro. Depois de concluir este módulo com sucesso, poderá proporcionar informações claras e precisas em relação a algumas das questões mais frequentes sobre o aborto medicamentoso, ajudar as mulheres a identificar sinais de advertência e tratar das questões das clientes que voltam à sua farmácia com dúvidas após um aborto medicamentoso.


6.1) Duração do aborto

O conteúdo uterino é normalmente expelido durante as 24 horas após a toma das últimas pílulas de Misoprostol. No entanto, o processo de aborto completo poderá continuar ao longo dos próximos dias, com uma maioria das mulheres a concluir o processo de aborto até aos 7 dias. Algumas mulheres também poderão continuar o processo durante um curto período de tempo além dos 7 dias. Uma vez que o início e a duração do sangramento e das cólicas são diferentes em cada mulher, é muito difícil prever como vai ser a experiência. Desde que a mulher esteja a expelir os produtos da conceção, não esteja a sentir sinais de advertência e sinta uma redução ou ausência dos sintomas da gravidez, nada mais há a fazer.

Normalmente ocorre um sangramento mais forte durante o verdadeiro aborto. A maioria das vezes, isto implica mais sangramento do que durante um período de menstruação forte com cólicas. O sangramento e as cólicas diminuem após os produtos da conceção terem sido expelidos. Continuará a haver algum sangramento com uma quantidade similar à obtida ao longo de um período de menstruação, durante até duas semanas após o aborto. No entanto, a intensidade do sangramento deve diminuir gradualmente ao longo do tempo.

Seguimento após um aborto medicamentoso

As mulheres que utilizarem Mifepristone e Misoprostol normalmente não necessitam de uma visita de seguimento a um profissional de saúde desde que deixem de sentir sintomas da gravidez após o aborto, se sintam bem de saúde e não tenham um sangramento muito forte.

No entanto, se utilizar o aborto medicamentoso apenas com Misoprostol, as gravidezes de até 10% das mulheres poderão permanecer ativas ou continuar – uma condição em que o Misoprostol pode não funcionar para interromper a gravidez. As mulheres devem, por conseguinte, ser aconselhadas sobre a necessidade de um seguimento após 7 dias por parte de um profissional de saúde, de modo a garantir que o processo foi concluído e que já não necessitam de cuidados adicionais.

Com base no contexto local, isto pode representar um desafio devido ao forte preconceito ou à situação legal. Os farmacêuticos podem proporcionar informações sobre médicos, enfermeiras ou parteiras que prestem cuidados de saúde, ou recomendar às clientes que obtenham cuidados médicos num centro de saúde público e expliquem que tiveram uma interrupção espontânea da gravidez.

6.2) Sinais de advertência e como devem ser controlados

  • Sangramento excessivo: ensopar mais do que dois absorventes higiénicos por hora durante duas horas consecutivas, principalmente se acompanhado por tonturas prolongadas, vertigens e maior fadiga
  • Nenhum ou pouco sangramento (como um período ligeiro) após tomar o Misoprostol (possibilidade de uma gravidez ectópica)
  • Febre de 38 °C (100,4 °F) ou superior ou febre no dia seguinte à administração da última dose de Misoprostol
  • Secreção e/ou odor vaginal desagradável
  • Dores abdominais fortes no dia seguinte à administração do Misoprostol
  • Sentir-se muito doente com ou sem febre e diarreia, vómitos ou náuseas graves permanentes durante mais de 24 horas

Uma mulher que sinta qualquer um destes sinais de advertência pode estar possivelmente a sofrer um evento adverso e deve dirigir-se imediatamente a um centro de saúde. Em vários casos, uma intervenção limitada por parte de um profissional de saúde qualificado é adequada para abordar as condições supramencionadas. Em casos excecionais, as mulheres poderão necessitar de hospitalização, intervenção cirúrgica adicional, transfusão de sangue ou cuidados avançados.

No final da interação com uma cliente que obteve os fármacos do aborto medicamentoso da sua parte, confirme o seguinte:

  1. A mulher entende quando e como deve utilizar os comprimidos de Mifepristone e/ou Misoprostol antes de sair da farmácia.
  2. Certifique-se de que a mulher entende quando e como deve administrar medicamentos complementares a si mesma, incluindo fármacos para controlo das dores.
  3. Certifique-se de que a mulher entende quando deve contactar um profissional de saúde, no caso de haver sinais de advertência.

6.3 Clientes recorrentes – cenários comuns e como proporcionar informações

Em alguns contextos, as mulheres poderão voltar à sua farmácia alguns dias ou semanas após a aquisição dos fármacos do aborto medicamentoso com perguntas, comentários ou preocupações adicionais. Abaixo estão alguns cenários comuns pelos quais passam os farmacêuticos e funcionários das farmácias que prestam serviços de aborto medicamentoso.

  1. Nenhum ou ligeiro sangramento após a utilização dos fármacos do aborto medicamentoso:
    Este cenário pode representar uma ou mais das seguintes condições:
    • A possibilidade de uma gravidez ectópica. O não sangramento ou expulsão dos produtos da conceção após o aborto medicamentoso deve levantar imediatamente a suspeita de uma gravidez ectópica e as mulheres devem ser aconselhadas a consultar urgentemente um médico num centro de saúde para o tratamento da gravidez ectópica.
    • Um aborto medicamentoso falhado. Numa pequena minoria de casos, por diversos motivos, o aborto medicamentoso pode falhar apesar das mulheres seguirem todas as instruções. Nesses casos, as mulheres devem ser informadas de que esses fármacos podem ser potencialmente prejudiciais para a continuidade da gravidez e, por conseguinte, devem consultar imediatamente um médico e reavaliar as suas opções.
    • Malformações uterinas. Em alguns casos excecionais, as anormalidades da forma do útero podem limitar a quantidade de sangramento após um aborto medicamentoso. Isto pode ser identificado e controlado com uma ecografia ou outras técnicas de imagem. Assim, as mulheres devem ser aconselhadas a obter ajuda junto de um profissional de saúde adequado
  2. Continuação de um sangramento forte mesmo após 7 dias:
    Se as mulheres não sentirem uma redução na quantidade e padrão do sangramento 7 dias após um aborto medicamentoso, devem ser examinadas por um profissional de saúde, de modo a garantir que o aborto está concluído. Na maioria dos casos, as mulheres sofrem um aborto incompleto com alguns produtos da conceção retidos que causam esse sangramento. Além disso, as mulheres que possuam miomas submucosos poderão continuar a sangrar fortemente e devem ser aconselhadas a se dirigirem a um centro de saúde para obterem atenção médica.
  3. Continuação dos sintomas e sinais de gravidez:
    Quando as mulheres apresentam este cenário após a utilização de um aborto medicamentoso apenas com Misoprostol – deve haver uma forte suspeita de que o aborto medicamentoso falhou. Nesses casos, as mulheres devem ser informadas de que esses fármacos podem ser potencialmente prejudiciais para a continuidade da gravidez e, por conseguinte, devem consultar imediatamente um médico e reavaliar as suas opções. Dependendo do contexto local e da disponibilidade de outros provedores do aborto seguros, pode encaminhar a mulher para um provedor do aborto seguro para que lhe seja realizado um aborto cirúrgico ou tentar repetir uma dose do aborto medicamentoso, com base na escolha da cliente.
  4. Um teste de gravidez por urina continua a ser positivo – o que devo fazer?
    É provável que várias mulheres realizem um teste de gravidez por urina alguns dias após um aborto medicamentoso, de modo a garantir que a gravidez foi interrompida. Um teste de gravidez por urina de rotina (vendido na maioria das farmácias) está concebido para apresentar um resultado positivo quando há uma pequena quantidade de hormonas da gravidez (Gonadotrofina Coriónica Humana Beta - HCG). Uma vez que a hormona demora até 3 semanas a desaparecer após a interrupção de uma gravidez inferior a 10 semanas, os testes de gravidez por urina podem continuar a ser positivos. Explique este raciocínio e sossegue a cliente. Peça-lhe que verifique dentro de 3 semanas para ter a certeza. Informe-a de que o desaparecimento dos sintomas de gravidez é igualmente um indicador preciso do sucesso do aborto medicamentoso.

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